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O Julgamento de um Criminoso de Guerra Militar por uma Casa Civil

Com a palavra, o ilustríssimo presidente do tribunal.

A defesa tem agora a parte.

Com a palavra, o ilustríssimo advogado de defesa.

Excelência, caríssimo meritíssimo, eu como magno representante de defesa deste inocente réu, injustiçado; utilizarei toda a habilidade verbal, do conhecimento de bacharel e da titularidade de doutor que meritoriamente me foi concebida, quando fiz jus ao canudo que me foi ofertado, no meu festivo baile de formatura.

Interrupção do ilustríssimo presidente do tribunal.

Nobre advogado contenha a virtuosidade de suas alegações carismáticas, todavia sinto lhe informar que o senhor não se fez explicar. Detenha-se à matéria tratada neste julgamento e por gentileza faça um sumário de suas idéias.

Com a palavra, o ilustríssimo advogado de defesa.

Senhor juiz; quero defender o meu cliente com unhas e dentes, porque digo a todos que ele é inocente e tenho certeza que a justiça vai perceber tudo isso que estou mostrando.

Com a palavra, o ilustríssimo presidente do tribunal.

Muito obrigado nobre advogado de defesa, mas agora quero passar a palavra para o também ilustre representante da defensoria pública.             

Com a palavra, o ilustríssimo defensor público.

Senhor juiz, não aceito o modo como que ele, data vênia, quando digo, ele, não quero abusar da intimidade no trato das questões jurídicas; por conseguinte ratifico, salientando que intitularei o nobre de colega.

Não cometerei mais erros ex-nunc e prosseguirei no trato de minhas extensas idéias oceânicas ex-tunc. Digo agora e repetirei sempre, até que o senhor entenda, até que se faça luz na justiça.

Se o nobre colega é detentor de canudos, eu quero dizer para ele que eu também detenho canudos, e que ele não é melhor do que eu não. Pocha senhor juiz, ele não pode fazer isso não, eu sou do signo de capricórnio e não levo desaforo para casa não.

Intervenção do Meritíssimo.

Caro defensor público, o senhor está se afastando, um pouco, da matéria, agora lhe devolvo a palavra.

Com a palavra, o ilustríssimo defensor público.

Senhor juiz, o senhor me desculpe, por favor...

Intervenção do nobre advogado de defesa.

Senhor juiz, veementemente eu não aceito o pedido de desculpas do defensor público; ele está tentando confundir o senhor com apelos sentimentais...

Interrupção do Juiz.

Senhor defensor público, o senhor está me achando com cara de menino, acha que não consigo dominar os meus sentimentos. Por gentileza não me deixe nervoso, pois sou do signo de touro e me esqueci de ler o meu horóscopo hoje; além domais, fique o senhor sabendo que ele pediu desculpas foi para mim, não foi para o senhor não.

O senhor já viu advogado novo enganar juiz velho?

Agora concedo a palavra final, imparcialmente em ordem alfabética, para que haja ordem no tribunal; de primeira mão para o nobre advogado de defesa e de segunda mão para a defensoria pública.

No mais aconselho aos caros representantes da lei, que tomem cuidado com o que vão dizer; cautela e canja de galinha não fazem mal a vocês. Saibam senhores que a partir do que disserem tomarei as decisões cabíveis, restando ainda salientar que levarei em conta a opinião dos jurados. Por gentileza, prossigam em ordem alfabética.

Com a palavra, o ilustríssimo advogado de defesa.

Senhor juiz; olhe para a cara deste jovem oficial militar; eu vos pergunto senhores jurados. Ele tem cara de culpado? Pois lhes digo de passagem que ele não tem, e afirmo-lhes isto com tanta convicção porque eu conversei com ele numa ante-sala aqui do fórum e o que ficou combinado foi o seguinte:

Ele estava na varanda da sala limpando a sua espingarda baioneta, quando derrepente ela disparou atingindo o gato da vizinha. Ele ficou muito nervoso pegou o telefone e ligou para o disque-sexo; transtornado verificou que tinha feito uma ligação certa, no momento errado. Então, finalmente, ele ligou para o corpo de bombeiros.

E é pelo ato nobre da ligação para os defensores do fogo, que eu vos afirmo, ele não é culpado, ele é inocente; nada mais a declarar, muito obrigado e saibam senhores que honro a minha carteira de advogado. Passar bem.

Com a palavra o ilustríssimo meritíssimo presidente do tribunal.

Mais uma vez muito obrigado nobre advogado de defesa. Passo a palavra ao defensor público.

Com a palavra, a defensoria pública.

Senhores advogados, juizes, testemunhas e personalidades aqui presentes no auditório. A senhores jurados. Foi constatada no exame de balística, pólvora na mão esquerda do réu. Como todos vocês sabem, o réu não é canhoto e nem ambidestro, ele é destro.

Logo se a pólvora foi encontrada na mão esquerda e não na direita; isto prova que ele estava testando as suas habilidades com a baioneta, pois se ele estivesse apenas bolinando a baioneta, o disparo teria sido com a mão direita e assim sim acidental.

Além domais, o nobre colega se equivocou ao afirmar que o gato fora atingido no quintal, pois saibam senhores e senhoras aqui presentes, o gato foi atingido encima do muro.                

Teria sido mais lógico também, se o réu ao invés de ter ligado para o corpo de bombeiros, pois faz sentido, tivesse ligado para o médico veterinário.

Senhor juiz; entrego-lhe em mãos esta carta onde o síndico do prédio vizinho ao do réu, confessa que o réu, não paga o aluguel há quatro meses; não paga a conta de água há três meses, está morando no prédio há um ano e já está querendo se mudar. Um réu desses não tem caráter, por isso aconselho o senhor a condená-lo.

Com a palavra final o ilustríssimo meritíssimo presidente do tribunal.

Ouvidas as colocações finais das partes interessadas e de posse dos documentos pertinentes ao processo; documentos tais como: as certidões de nascimento e falecimento do gato, notas fiscais provando que o gato era bem tratado, pois a dona o levava periodicamente ao médico veterinário, além da carta esclarecedora; trazida pelo moto-boy e enviada pelo síndico. Peço agora ao réu que faça o juramento de dizer nada além da verdade e nada aquém também.

Portanto diante de todos estes fatos, confesso que este é um caso difícil, que é um caso complicado, mas que logo será resolvido, ficando bem para ambas as partes.

Peço encarecidamente paciência, pois necessito de quatro dias úteis para tomar a minha decisão, que será publicada no terceiro dia útil posterior, nas páginas amarelas do diário oficial de Soterópolis. 

Cessão encerrada.  

Autor: Eduardo Gomes
Data: 26/06/2000


 
 

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