Poesias

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Arte, Mentira ou Dissimulação?

O artista ilude não só para o seu próprio gozo, retificando a realidade com o intuito virtuoso e sinistro de desmistificar a bestialidade que nos impera. Forjando laços recorrentes de inverdades, transformando esterco em lindas beldades por pacto, por erudição, por dissimulação com o apoio velado de toda a sociedade que simplesmente da realidade, fervorosamente não a suporta...

 

Que seria da prosa se não houvesse o perfume doce da poesia? Seria triste imaginar um mundo onde tudo que se versasse tivesse apenas compromisso com o real, abandonando a prerrogativa de sonhar, deixando de lado a qualidade do não ser e ser apenas ceticismo ante à visionariedade que nos cala as tormentas do quotidiano.

 

Que espécie de cheirume escravagista de mentes teríamos de consumir de então, se nos quadros, telas nada mais que naturezas mortas fossem tingidos. E o novo, o belo que nos encanta e nos produz sentido metafórico à vida, por onde andariam? Quem seriamos senão máquinas se podássemos do artista a prerrogativa de  criar, inventar, recriar, mentir, dissimular, mistificar, sacralisar e ludibriar ao seu público que encantado, extasiado, sorri ou chora e também sente.

 

Por onde navegariam nossas angústias senão sobre nossas testas se não pudéssemos fingir apenas, não temos razão para não sermos felizes e radiantes, alegres e sorridentes eis que da vida nos cabe a melhor parte e se se falar de morte que se minta e que se a mate.

 

Qual perverso seria o mundo sem a arte que nasceu com a ascensão mental do homem desde as eras mais primitivas, subtilmente grafando em pedras seu mundo interior e ulterior... Quantas poesias nestas pedras, quantos versos de dor e tristeza, quanta glorificação à caça que nos foi por milênios nosso tenro alimento.

 

Portanto caros artistas ( pintores, poetas, filósofos, consortes, músicos, cientistas, religiosos, escritores e etc ) mintam, dissimulem... Reprocessem esta maldita realidade mesquinha e não permitam que ela nos abata e nos deprecie... Construam castelos de areia, vidas imaginárias, salvações e metáforas que nos façam suportar esta passagem terrenalista ( única eu sei, mas não devo acreditar! ) da melhor forma possível!

 

E a melhor forma é gozar de prazer no bojo da arte, no balaio de gatos da poesia, na sinfonia desarmônica da música quotidiana, na felação da verdade pelos religiosos... E que não sejamos jamais pobres de espírito condenando a arte e seus aficionados por todo os conjunto de mentiras que se fazem necessárias para que não percamos a lucidez no meio de tanta destruição, incompreensão e degradação que nos rodeiam...

 

Filhos que somos desta mãe impiedosa, a Natureza, mas que mesmo assim não devemos deixar de amá-la pelo simples fato de ter nos permitido forjar a arte, mesmo que seja com tijolos de mentira numa argamassa dissimulada!

Autor: Eduardo Gomes
Data: 30/12/2004


 
 

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