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Tratado Irretocável Sobre a Bendita Escravidão Negra nas Américas!

Óooo! Áaaa! Úuuu!...

 

Lá vem, de novo, o inimigo número dois, das irretocáveis tradições!

 

Sou Jonny Nagô, do bloco afro, Gueto Mandela Nagô e exijo expricações.

 

Sou William Tanajura, sou negro, sou advogado, sou karateca e desejo reparações, senão vou te dar um aiky-dôo! Háaa!

 

Sou Inara Volúpia, sou modelo em Paris, e quero que o senhor me mostre o porquê!

 

Somos o nê, nê, nê e atentamos por respostas de você!

 

Senhores, querida senhorita Inara Volúpia; sou Elinaldo Batata Tônys; a minha formação acadêmica pertence à cadeira de astrologia, curso de pequena duração, mas de grande valia, além disso, participei do curso de mapa astral comentado com 69 horas de dura ação, que me habilitou a elaborar o mapa astral das três puras etnias.

 

Senhor Jonny; pertencemos a agremiações paralelas, pois sou fundador do primeiro bloco afrodisíaco da Bahia; o bloco afro-afrodisíaco Araxá.

 

Senhor; desculpe, doutor William, contenha o seu ímpeto guerreiro! Confesso que pensei que o senhor iria me processar?

 

Senhorita Inara Volúpia (um forte suspiro, áaaaaa ), a docilidade de sua demanda será a curva retificadora de minha oferta!

 

Finalmente vamos ao que interessa:

 

Uma análise inteligente sobre o tratado, dirá na sub-atmosfera dos seus primeiros pensamentos:

 

A escravidão é um crime hediondo em sua essência, pois homens não podem sobrepor-se a outros, já que debaixo de todos os mantos, transita a mesma carne.

 

Concordo, mas quero ressaltar outros aspectos relevantes aos fatos históricos.

 

Uma sábia análise sobre o tratado, o seguinte dirá:

 

Se das terras do mar ao lado, não fossem, parte dos antepassados dos senhores, drasticamente retirados; certo, pelos conquistadores, e também antepassados, do mar de cima; fatalmente hoje os senhores das terras de além mar, não existiriam.

 

O público, óooo! Uma mãe de santo diz: epa-rei meu pai; livrai-nos do belzebu!

 

Opa! Opa! Opa! Calma, atentos telespectadores, sempre haverão surpresas. Além domais, costumo caminhar sobre a superfície oceânica e não magmática.

 

Já disse tudo e não precisaria dizer mais nada; mas como os senhores continuam atentos e boquiabertos, discorrerei com palavras verdadeiras e amenas nas entrelinhas, que não me saem do pensamento.

 

Sugiro aos senhores, líderes religiosos, e participantes do candomblé, que não cultuem só a Oxalá, Oxumaré, Oxalufâ e Oxossi. Lembrem-se de Iemanjá e passem a amar os antigos escravocratas, também responsáveis por nossa grandiosa existência.

 

Neste momento ouve-se da platéia ensandecida, um estrondo avassalador, um grito assustador e na fila Z, cadeira 22, o jovem Carlito da Gama Saragoza, sobrinho-neto de Bastos da Gama, vocifera:

 

Ostede és um irro de la putonna, porque soi irro de um negron e una negrita e tiengo muito orgurro e respecho de mi padres; vaja catar latitas a la plaja bundom!

 

Silêncio platéia, por favor, silêncio! Do contrário não consigo me concentrar?

 

Sei que o assunto é polêmico, mas não posso deixar de lembrar-vos, que a escravidão é muito mais antiga do que se possa imaginar, tendo vários povos, das diversas etnias, passado por ela, portanto paremos de nos lamentar por este trágico passado recente e louvemos a máxima continuidade indeterminável dos fatos e eras históricos que nos legaram a existência.

 

Além domais, não podemos deixar de louvar também, a santa fusão dos ativos agentes, emoldurada na reação dos também ativos reagentes e seus póstumos subprodutos.

 

Só devemos temer e lamentar a mais antiga das escravidões, a escravidão da ignorância do conhecimento e do saber que nos tem levado a uma forma de escravidão mais recente e penosa; a escravidão econômica.

 

Desta bandeira flamejante em luta e resignação é imprescindível que se combata pacificamente a ignorância, transmitindo e repartindo o conhecimento por todos os seres carnais para que possamos nos libertar e extinguir de vez qualquer malévola forma de escravidão.

 

Agora, ouve-se da platéia: Áaaa! Éeee! Íiii! Óooo! Úuuu! E insurgem-se, então, os participantes de uma agremiação política; os pacíficos de centro-esquerda: armados com faixas, cartazes e bandeirolas, sendo na mão de um dos pacíficos, um belo cartaz contendo uma pequenina foto do querido líder político Matissumiro Matissumoto.

 

Por favor! Por favor! Assim não dá para haver diálogo com vocês; pacíficos! Não é possível que quatro pacíficos, fiquem fazendo estardalhaço aqui no auditório da câmara dos deputados. Por gentileza seu Zé do Bode, acenda a luz que está sobre a cabeça dos pacíficos.

 

Sentem-se pacíficos, quero ver a cara dos seus líderes!

 

Pois muito bem, professor Elinaldo, o senhor acha que com o seu diploma de astrólogo e essa máscara preta em sua cara, o senhor pode vomitar em nossos ouvidos, essas suas palestrinhas picarético-cafagestosas, o senhor está muito enganado, viu.

 

O senhor pacífico me agride, além de agredir aos outros professores e professoras aqui presentes. Seja pacífico e intitule-se!

 

Sou Clérigo Valadares Pinto! Das minhas atividades políticas mais recentes, fui vereador uma vez por Santos e depois presidente do partido dos pacíficos; da academia recebi o diploma de Químico-industrial, e nada mais me orgulha e me engrandece do que isto.

 

Papai queria que eu fosse Jogador de Futebol (Vejam só; eu o Ronaldinho, confesso que nunca tive habilidades com as pernas, sou melhor com as mãos ).

 

Mamãe queria que eu fosse Analista de Sistemas, e paro para pensar e acho que seria muito bom no trato das interfaces inteligentes e adoraria fazer vários programas modulares, então eu seria um garoto de programas, Ah, há, há, há, há. Pode Zé do bigode?

 

Tenho uma namorada! Ééé; e gosto muito dela, estamos namorando, ficaremos noivos e casaremos em breve?

 

Não teremos filhos, filhos dão muito trabalho e nós somos individualistas!

 

De repente, uma interrupção turbulenta:

 

Pera aê ôo, favô doutor Elinaldo; discurpe, mir perdões, professô Elinaldo, ô tô cum sinhô, mô nome é Roquis Jonis da Silva, sou nêgo, bato boquis e num tô concordano com o que esse tar de pacífico anda falano pra nós não.

 

Se as tar das Caravelha num tivesse trazido nós pra cá eu num tava bateno boquis, eu tara era prantano maindioca lá num tar de Porto Rico.

 

Além demais eu tenho duas filhas e um filhos e eles são junto com a minha muié, as criatura que mais amo!

 

Muitíssimo obrigado por suas considerações amistosas e verdadeiras, amigo Roquis Jonis, qualquer dia desses irei assistir a uma luva sua de boxe. Agradeço a Clérigo Valadares!

 

E quero dizer aos senhores e senhoras da comunidade negra que tenho todas as etnias no coração, em igualdade!!!

 

Peço aos senhores que balbuciem comigo esta oração:

 

Ó Nativos Americanos! Ó Senhores Escravocratas! Ó Senhores Primos Colonizadores das Américas! Ó Estagiário Bill Clinton! Ó Portugueses! Ó Espanhóis! Ó Ingleses! Ó Franceses! Ó Holandeses! Ó Italianos! Ó Chineses! Ó Japoneses! Ó para os outros povos conquistadores!

 

Senhores, lhes somos muito gratos pelo fortíssimo caldo de culturas, pelo riquíssimo legado artístico, pela capacidade intelectual e científica que nos foi transmitida pela Europa e pela inocência e sabedoria que veio do Oriente, com milênios de diferença de chegada entre elas.

 

E nós, principalmente nós, os negros, os pardos, os mulatos, os caboclos, os morenos, os brancos, os orientalisados, já miscigenados, queremos lhes agradecer, de todo o coração, pela oportunidade que os senhores nos deram de nos tornarmos Médicos, Arquitetos, Engenheiros, Analistas de Sistemas, Químicos, Padres, Madres, Garis, Astronautas, Antropólogos, Geógrafos, Geólogos, Telefonistas, Dançarinos, Músicos, Cantores Líricos, Artistas, Filósofos, Cientistas, Jogadores de qualquer esporte, Políticos, Modelos etc...

 

Enfim; os senhores nos trouxeram da ingenuidade e agressividade, rústica, de nossas vidas pastoris, de nossas coletas e de nossas caças para a grandiosidade de vosso mundo, religioso, científico, cultural, artístico, sexual, surreal, abstrato, metafísico, espiritual, visionário, moderno, contemporâneo, evoluído e etc...

 

E nós com graça, emprestamos a nossa beleza para os vossos filhos e filhas para a vossa perplexa admiração, felicidade e felicitação à vida que nos entorna ao contorno globalizado!

 

Agora pertencemos todos a mesma tribo! Moramos todos na mesma taba! Bebemos do mesmo Whisky, Cerveja, Cachaça, Água, Vinho, Vodka, Champagne, Saquê e etc... Somos literalmente e biologicamente iguais, indistinguíveis além dos traços estéticos, que nos tornam interessantes uns para os outros justamente por nossas diferenças de traços físicos. Os senhores já imaginaram que chatíssimo seria se tivéssemos todos as mesmas cores, alturas, cabelos, olhos, traços, feições. As nossas diferenças fisiológicas é que nos atrai uns aos outros como metal imantado?! 

 

Não somos retas paralelas, pois nos cruzamos nas esquinas e em todos os cantos deste planeta e de nossa única genitora, a Eva natural das Mitocôndrias e de nosso único genitor, o Adão dos Cromossomos! Por volta de 200.000 anos atrás, 20.000 indivíduos compunham a nossa chamada Humanidade, nos seios da África! Surgia assim o Homem Moderno, Homo Sapiens Sapiens! 

 

E por isso, eu vos peço em rogativa, Humanos! Por gentileza e humanismo e por nós mesmos, cuidem da mãe África in Natura, nosso berço, nossa origem, nosso lar primordial de onde partimos para conquistar este planeta e que hoje agoniza em mazelas, abandonada ao léu, precisando de ajuda educacional, conservadorista, tecnológica, farmacológica, em fim de toda a espécie de ajuda possível! 

 

Pois se lembrem sempre senhores, por baixo de todos os mantos de carne, escorrem os mesmos sangues e no fundo dos olhos de cada alma que translada neste nosso vasto e amado planeta; ecoam os mesmos instintos.

 

Amém!!!

Autor: Eduardo Gomes
Data: 26/06/2000


 
 

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