Poesias

Hai Cai            

Bashô (CAlex Fagundes )

Kuni Matsuo assinala que os elementos essenciais da poesia de Bashô devem ser buscados na delicadeza espiritual do poeta, na quietude e na calma, que constituem os estados vitais de sentido filosófico, de maneira alguma oposto ao radiante, ao luminoso ou alegre; e são estes elementos os que estimulam sua própria harmonia.

 

À maneira de "ideogramas" realizados com paciência e preocupados em não ocultar seu permanente amor aos seres, os poemas de Bashô contrastam com a obra literária obscura e barroca. É possível viver dentro do que pode nos enfeitiçar poeticamente, mas, de qualquer maneira, é difícil compreender uma lição de ética, de fervor poético como o de Bashô, sem penetrar por um instante nos princípios budistas que orientaram sua vida. 

Bashô sabia que nos seres inanimados, na natureza, iria encontrar fórmulas de intensa piedade poética. E preferiu  associar-se a tudo que era sensível ou inanimado que passava ao seu lado para integrá-lo imediatamente à sua poesia. Ao lê-lo, através dos caracteres japoneses, afirma-se, voltam a viver os lugares e as coisas, analogamente às cores e às formas emergindo do plano horizontal de um "makimono" estendido. 

Nascido em Ueno (1644), Matsuo Bashô conheceu em seu lar o rigor do guerreiro e a austera orientação dos antigos costumes. Um "daímio" governava sua família e seu pai encontrava-se a seu serviço, uma vez que a ascendência familiar de Bashô pertencia à casta dos samurais. O castelo ficava em Iga, ao sul do Japão. O filho do "daímio", Sengin, e o mestre deste, Kigin, ensinaram a Bashô a arte da poesia. Mas, além de guia bondoso, Sengin foi o amigo carinhoso, aquele que formaria seu caráter e seus gostos. 

Parece que já tinha escrito algum poema com a idade de nove anos, porém é mais conhecido o escrito para o ano do pássaro (1657), relacionado com o calendário japonês: 

Oh, amigo 
do cão e do macaco: 
o ano do pássaro!

Este poema é uma espécie de jogo ingênuo e a alusão rememora que o ano do pássaro se encontra localizado entre o do cão e o do macaco. 

Infelizmente seu amigo Sengin morreu durante o ano de 1666. A dor provocada pelo seu desaparecimento lhe faz "renunciar ao mundo" e refugiar-se no mosteiro de Koyasan. Foi uma impressão forte demais para seu espírito, conseguindo durante este período de meditação fortalecer seu coração e aumentar seus conhecimentos. Sabe-se que vinte anos depois da morte do amigo, voltou a Iga, durante a primavera. Ali retornou aos passeios que fazia com Sengin, por entre as cerejeiras em flor, conversando durante longas horas, e escreveu este poema: 

Muitos, muitos pensamentos 
voltam à minha mente 
flores de cerejeira!

O poeta estudou humanidades e depois refugiou-se na doutrina do zen-budismo. Viajou para Kioto com finalidade de investigação e ali se aperfeiçoou no hai-kai e, mais tarde, dirigiu-se a Edo para aprofundar seus conhecimentos. Ao escolher esta forma poética, destinada então ao gênero humorístico ou irônico, Bashô começou a variar o estilo, elevando sensivelmente sua qualidade até chegar a transformá-la numa criação que agrupava os conceitos de sobriedade ("sabi"), humanidade e sutileza. Aos poucos sua escola conseguiu reputação e fama, e o "estilo novo" adquiriu o princípio emocional produzido por "simples descrição", à maneira de uma leitura visual, e conhecido como "o princípio de comparação interna" . 

De sua vida de perambulações contam-se histórias belíssimas, mas o resultado mais importante destes anos consiste na notável técnica alcançada por seus poemas, assim como pela nobreza de seu conteúdo, virtudes que estenderam sua fama por todo o Japão.


Kuni Matsuo frisa que, aos 38 anos, abandonou sua vida errante e morou numa cabana em Fukagawa, defronte de uma plantação de bananeiras (bashô-an: daí surge a origem de seu nome) e cultivou os ensinamentos zen-budistas. No entanto, um incêndio destrói sua pobre choupana, acidente que o comove e o incita a retomar o caminho da peregrinação, uma vez que, como o próprio colmo o simboliza, tudo conspira para relembrar-lhe o sentido efêmero que traduz a aparência cotidiana. Talvez a própria cerimônia do chá, zen-budista, e os símbolos do seu ritual, tenham reforçado aqueles princípios de instabilidade. 

Começa desta maneira o que se pode considerar como o itinerário definitivo de sua obra. É dessa época especialmente seu Nozarashi-Kikó ou Notas de Viagem. Como Hokusai, o genial mestre 
da gravura, Bashô perdeu-se nos caminhos e deixou suas pupilas absorverem os múltiplos elementos que nos esquecemos de recobrar. Justamente em artistas como Bashô, Hokusai e o próprio São Francisco (com quem tanto se parecia o poeta japonês), aqueles elementos retornam transformados, pela primeira vez se acham tocados pela beleza, em seu sentido recreativo. Através deles as idéias, as recordações, os estados de espírito deixam-se perceber por longos e agudos contrastes. 

No Japão, além disso, a poesia é sinônimo de devoção, a natureza é adorada. Junte-se a isso que Bashô transmite em seus poemas essa solução contemplativa do mundo, estimulada através do zen-budismo. Bashô continuou viagem com o mudo estímulo de unir-se ao espírito dos seres animados e inanimados. Simples e puro, quase um asceta, encontrou na poesia, no hai-kai, a consagração de sua vida.

O maior poeta do Japão era, além de um estilista, um criador de formas, um humanista e um humorista. Vale lembrar aqui, nesse sentido, a história a respeito de Kikaku e seu poema sobre a pimenta. Este aluno escreveu o seguinte haikai:

Libélulas vermelhas! 
Tirai-lhes as asas 
e serão pimentas!

Bashô respondeu que um hai-kai deve, além disso, fazer supor um desejo diferente e, para prová-lo, escreveu desta maneira: 

Estas pimentas!
Acrescentai-lhes asas 
e serão libélulas! 

Bashô publicou inúmeras obras: Genyanki, Sarashina Kiko, Oku-No-Hosomishi, inegavelmente uma das mais importantes da literatura japonesa, que contêm uma coleção de notas de uma viagem de seis meses pelo norte do país cujo ponto final é o Templo da Deusa do Sol, em Ise, e entre aquelas em que se encontram alguns dos seus poemas mais famosos: Saga Nikki, Fukagawa-Shu e outros. Seus discípulos foram muitos e, no entanto, para melhor compreensão das obras posteriores a Bashô, é preciso consultar primeiro suas criações e seu estilo e depois o de seus alunos e seguidores. 

Com essa austeridade com a qual descobriu os destinos menores recebeu, em 1694, a morte. Em seu leito contou com a presença dos amigos e as palavras necessárias para entrar feliz em seu novo destino. Durante seu último período de doença, susteve com eles e com seus discípulos conversas constantes sobre religião, poesia e filosofia. Depois de morto, enterraram seu corpo no jardim do templo Yoshinaka-Dera, às margens do tranqüilo lago Biwa.

 

"Mas onde está o túmulo do divino Bashô? Aqui: uma simples estrela, uma pedra que acaricia as sombras ligeiras de uma bananeira", escreve Steinilber-Oberlin. Seus discípulos pediram ao mestre, perto da hora da partida, que escrevesse seu "poema de morte" mas este se negou, pensando talvez que o hai-kai da rã podia resumir sua experiência poética. No entanto, no dia seguinte, admitiu que tinha tido um sonho e escreveu: 

No caminho, a febre: 
e por meus sonhos, planura seca, 
vou errante.

Conta-se que depois quis corrigi-lo, mas, arrependido, disse: "Não o modificarei. Isto seria ainda vaidade e apego ao mundo, apesar do muito que amei a vida e a arte."

Alguns haicais de Bashô:

1

Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela !

2

Move-te ó tumba !
Meu pranto
é o vento do outono.

3

Sobre o telhado
flores de castanheiro
ignoradas.

4

Chuva cinzenta:
hoje é um dia feliz
mesmo com o Fuji invisível

5

Vamo-nos, vejamos
a neve caindo
de fadiga.

6

De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...

7

Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite...

8

Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.

9

Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

10

Relvas de verão
sob as quais os guerreiros
sonham.

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Texto editado no Digest diário por CAlex Fagundes

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Formatado por Rosângela Aliberti em 09/04/2006.

Autor: Eduardo Gomes
Data: 09/04/2006


 
 

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