Poesias

TEXTOS D TERCEIROS 01            

A imagem da Mulher Demoníaca em Cruz e Sousa e Baudelaire ( Maria Lúcia Pinheiro Sampaio )

Cruz e Sousa e Baudelaire são dois poetas simbolistas que identificam a imagem da mulher com o mal, com Satã. Affonso Romano de Sant'Anna analisa a figura do diabo no simbolismo e a identificação da mulher com o mal.

Sintomaticamente, o Simbolismo abre espaço para a figura do Diabo, do Demônio, de Satã, de Belzebu, de Lúcifer, ou Lusbel. Evidentemente, isso não é uma invenção simbolista. Não estranha, portanto, que a poesia simbolista verbalizasse esse conflito, elegendo duas maneiras típicas de representação: ora o mal está figurado mesmo na mulher, ora o mal está dentro do homem.

Exemplo da colocação do mal na figura da mulher aparece no próprio Baudelaire, que em seu Diário Íntimo identifica mulher e demônio: "A eterna Vênus (capricho, histeria, fantasia) é uma das formas sedutoras do Diabo".

Vamos analisar o poema de Cruz e Sousa, Lésbia e o de Baudelaire, O vampiro e depois compará-los.

LÉSBIA ( Cruz e Sousa )

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso.

Lésbia é descrita através de várias metáforas e símbolos que a identificam com o mal. É descrita como cróton selvagem, tinhorão lascivo e planta mortal, carnívora, sangrenta. Os adjetivos selvagem, lascivo, mortal, carnívora e sangrenta mostram a sua natureza de mulher fatal que traz a morte e devora seus amantes. O adjetivo carnívora mostra o seu caráter de fêmea devoradora dos amantes. O adjetivo sangrenta mostra que ela provoca ferimentos naqueles que a amam. É uma planta selvagem, lasciva. As metáforas tinhorão e planta mortal mostram a sua natureza selvagem e voluptuosa e o ser ligado à morte e à dor.

Sua carne é báquica, isto é, está ligada ao deus Baco, deus da orgia, do sexo e da embriagues. O adjetivo vermelha ligado a sangue conota a vida, a luxúria.

Deus da vegetação, da vinha, do vinho, dos frutos da renovação sazonal, "Senhor da árvore" (Plutarco) ele é aquele que "distribui a alegria em profusão" (Hesíodo)". Gênio da seiva e dos brotos", Dioniso é também o princípio e o senhor da fecundidade animal e humana.

Poder-se ia dizer, considerando as conseqüências sociais e, mesmo as formas do seu culto, que, Dioniso era o deus da libertação da supressão das proibições e dos tabus o deus das catarsis e da exuberância.

Na segunda estrofe, Eros e Thanatos se fundem. Seu amor trágico e triste se funde com o espasmo gélido da morte.

A essência de nossa investigação até agora foi o traçado de uma distinção nítida entre os instintos do ego e os instintos sexuais, e a visão de que os primeiros exercem pressão no sentido da morte e os últimos no sentido de um prolongamento da vida.

Agora, penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre instinto de vida e o instinto de destruição como se elabora na espécie humana.

No primeiro terceto, Lésbia é definida como nervosa, fascinante e doente. Através do símbolo da serpente, ela aparece com seu lado demoníaco, unindo prazer e mal.

Ela é mortal e curativa ao mesmo tempo um símbolo do espírito do mal e do espírito do bem, do diabo e de Cristo.

É um excelente símbolo do inconsciente, que exprime a presença inesperada e repentina do mesmo, sua intromissão incômoda ou perigosa e seu efeito amedrontador.

No último terceto o poeta, através do adjetivo capro a une ao bode, símbolo da luxúria, do demônio.

Exatamente como o carneiro, o bode simboliza a pujança genésica, a força vital, a libido, a fecundidade.

Animal impuro, completamente absorvido por sua necessidade de procriar, o bode nada mais é do que um signo de maldição, cuja força atingirá seu auge na Idade Média; o diabo, deus do sexo passa a ser apresentado, nessa época, sob a forma de um bode. Nas narrativas edificantes, a presença do demônio-tal como a do bode- é assinalada por um odor forte e acre.

Dos seus seios amargos fluem os aromas ligados ao bode, odor do diabo e o ópio, droga que vicia. Ela se liga à lua, a um luar tuberculoso.

Lésbia é a personificação de uma anima negativa, ligada ao mal, às orgias do deus Baco, ao bode que simboliza Satã e nela Eros e Thanatos se fundem.

Com o arquétipo da anima entramos no reino dos deuses, ou seja, na área que a metafísica reservou para si. Tudo o que é tocado pela anima torna-se numinoso, isto é, incondicional, perigoso, tabu, mágico. Ela é a serpente no paraíso do ser humano inofensivo, cheios de bons propósitos e intenções. Ela convence com suas razões a não se lidar com o inconsciente, pois isso destruiria inibições morais e desencadearia forças que seria melhor permanecerem inconscientes. Como quase sempre, ela não está totalmente errada; pois a vida não é somente o lado bom, é também o lado mau. Porque a anima quer vida, ela quer o bom e o mau. No reino da vida dos elfos, tais categorias não existem. Tanto a vida do corpo como a vida psíquica tem a indiscrição de se portarem muito melhor, e serem mais saudáveis sem a moral convencional.

O autor projeta em Lésbia as forças do mal, da morte, do sofrimento e da luxúria.

No sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o indivíduo expulsa de si e localiza no outro, pessoa ou coisa qualidades, sentimentos, desejos e mesmo objetos, que ele desdenha ou recusa de si. Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica e que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar normais, como a superstição.

Vamos comparar este poema com o poema de Baudelaire, O vampiro, símbolo de uma anima negativa, demoníaca. A mulher desejada é comparada a um vampiro, ser que suga o sangue e a vida.

O VAMPIRO ( Baudelaire )

Tu que, como uma punhalada,
Entrastes em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e ascendente;
_ Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como aos vermes a podridão,
_Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Ah! pobre! o veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil- de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro".

O poeta usa várias comparações para descrever a sedução perversa desta mulher. Ela entrou no coração do poeta como uma punhalada que fere, machuca. Surge com a força de uma manada de demônios, trazendo perturbação e confusão para a vida do poeta. Ela é a explosão do mal que tudo avassala. O poeta está preso a ela como o forçado à corrente, o jogador ao baralho, o borrachão à garrafa, a podridão aos vermes. Ela é para o poeta um vício como a bebida, o jogo e ele a maldiz.

Ele sabe que só a morte da mulher desejada o libertará da sua servidão e implora por ela. Mas o veneno e o punhal personificados, símbolos da morte dizem ao poeta que nem a morte o livrará de seu cativeiro, pois seu beijo ressuscitaria o cadáver do seu vampiro.

A mulher desejada é imortal como o vampiro e jamais libertará o poeta do seu jugo. Ela é o símbolo do mal, da devassidão, do vicio, da escravidão erótica.

Morto que supostamente sai do seu túmulo para vir sugar o sangue dos vivos.
O vampiro representa o apetite de viver, que renasce tão logo é saciado e que se esgota em se satisfazer em vão enquanto não for dominado. Na realidade, transferimos essa fome devoradora ao outro, quando tal não passa de um fenômeno de autodestruição. O ser se atormenta e se devora a si mesmo; enquanto não se ver responsável por seus fracassos, responsabiliza e acusa o outro.

O vampiro simboliza uma inversão das forças psíquicas contra nós mesmos.

As mulheres descritas nos dois poemas ligam-se a Lilith, símbolo da mulher demoníaca.

Lilith é um "mito arcaico", seguramente anterior na redação jeovística da Bíblia ao mito de Eva por isto se pode dizer que Lilith foi a primeira companheira de Adão. É claro que o conteúdo do mito de Lilith tem fortes paralelismos com o mito de Eva. Porém, parece-nos útil por em relevo um particular: Lilith entra no mito já como "demônio", uma figura de saliva e sangue, um verdadeiro espírito deixado em estado informe por Deus; é uma companheira que apresenta fortes traços de "fatalidade".

A Lilith é, indubitavelmente atribuída também à qualidade de vampiro. Desta informação temos só uma fonte Ernst Jones, que diz textualmente:

Como os Íncubos sugam os fluidos vitais levando a vítima à consunção também os vampiros freqüentemente pousam sobre o peito da vítima sufocando-a. A Lilith hebraica que Iohannes Wejer chamou de princesa dos Súcubos, descendia da babilônica Lilitu, conhecido vampiro.

Lésbia e a mulher vampiro são mulheres fatais, ligadas à morte e ao mal. São sedutoras que subjugam os homens a sua atração. Ligam-se as divindades femininas maléficas. Diante da mulher-deusa o homem se sente impotente e ameaçado pelo seu poder. Lésbia e a mulher-vampiro ressuscitam o poder das antigas deusas ferozes com seus rituais de sacrifícios humanos. Lésbia e a mulher-vampiro exercem medo e fascinação nos poetas.

O arquétipo da deusa-mãe deve ter sido ativado no simbolismo. As duas mulheres descritas vêm carregadas de numinosidade, pois estão na esfera do mito e do sagrado.

Simbolizam imagens arcaicas da mulher e surgem do inconsciente coletivo de uma época. No poema de Baudelaire, o poeta é sacrificado e cai sob o jugo da mulher-vampiro. Cruz e Sousa sucumbe ao fascínio doentio de Lésbia.

A atração despertada pelas duas mulheres é fatal e mortífera. São seres ligados à morte e à devassidão.
 
Texto de Maria Lúcia Pinheiro Sampaio - Prof. da UNESP(Assis/SP) em 05/12/2005.

Autor: Eduardo Gomes
Data: 05/12/2005


 
 

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