Poesias

GRUPO ESCRITAS            

Pedro e Inês

"Coimbra onde uma vez, com lágrimas se fez a história dessa Inês tão linda..."

"Abril em Portugal é o nome por que ficou conhecido no estrangeiro o fado Coimbra"
Jorge Vicente, poeta, em 19.05.03

PEDRO E INÊS

à Marcia

(continuar)
 
Viajo no tempo
transporto-me a outras idades 
chego à aura lenda de Inês.
Inês a filha bastarda
a seduzida
a sedutora
Inês a da paixão adúltera
paixão fulminante
Inês a exilada
decapitada
         (numa manhã, antes que a neblina do rio se tivesse dissipado)
Inês a imortalizada,
enaltecida;
Inês a sempre recordada
         "aquela que depois de morta foi rainha".
 
Sente-me por dentro da raiz da pedra...
Plantamos o tempo no alicerce fecundo dos nossos passos
e o absoluto da seiva há-de brotar
quando os ecos das lágrimas
não forem mais que sombreadas glórias recamando átrios
do fim do mundo onde te espero à flor da noite
para colhermos, da árvore da alma
a génese infinda da alba madura nos imortais lábios
deste régio amor
O amor, quando alcança o infinito
Não tem mais por onde estender
A sua força, a sua essência, o seu ardor
É nesse momento que a Fortuna infiel
Trata de lançar na desdita os arautos
De um tempo de paz... de um sentimento maior

Com que mão cruel levanta o algoz
A lâmina brilhando contra a luz morrente
Selvagem braço, cruzando o coração abandonado
E deixando escorregar o néctar divino
Que o enchia de uma leda esperança no homem
Mas no amor não há esperança... mas uma loucura
Que nos leva a ver na face do espelho
O outro lado da realidade

Com que selvagem ira o rei justiceiro
Despedaçou os algozes, na sua afronta servil
A um pai severo... a um rei austero
Depois de morta foi rainha? Não sabemos
Mas em vida foi rainha dos destinos amorosos
Alvo predilecto das flechas de cúpido
Destino final do jugo do Destino
Assim foi Inês, linda junto à fonte dos amores
Assim é Portugal, nação de amores eternos
Que a Morte não consegue alcançar
Quando a manhã era de oiro florido, nas arvores
Em folhas de Outono, voltei para ti nos lugares
Da loucura, pelo arco do peito feito arca da
Memória, o que o poema abriu foi a paixão onde
A palavra inicia a construção do corpo. Obliqua a
Catedral, rente à bruma, as casas interiores, em
Este ermo, já não podes partir, e no entanto partes
Murmuro com alegria nas lágrimas dos lábios, Inês
Ultíssima visão amortecida e larga, olha flor com
As giestas vais, é como um berro, a cavalo na folha
 
no sulco do vento em que emigro, no lugar
da gaivota em que me perco, avanço no teu
regaço, tulipa rosa da minha paixão. Sem dor
dentro do meu coração; a paz onde repousa
Inês na pedra macia.
 
Daqui, no cume deste Monte da Esperança
ruma uma ave por sobre o Mondego.
Repara como chora a luz
que seu corpo emana
Repara como sorri esta pedra
onde o musgo sussurra
quando Inês colhe a derradeira
flor do entardecer.
 
Desenhei devagar a minha habitação
Sem o território das lágrimas vermelhas
podias ser a Inês, a que eu conheço, que toca piano
e fala português, vive como as amigas no adro da vida,
melhor dizendo, passeando pelas avenidas trocando palavras atrevidas
com os outros, não é melhor que a amante de Pedro, o cru,
é simplesmente a vida cheia de coisa quase nenhuma e por isso é tão boa como uma lenda.
como uma lua cheia ou como um arco de prata. é tão boa que nem se dá por isso.
O amor impossível também
Debaixo de Santa Clara,
dois olhos escondem uma lágrima.
o rio cai e fere a nora que vai
levantando os vestidos. D. Pedro
e D. Inês morreram quando o sol
se ia. agora vestem-se de morcegos
e habitam nas raias da memória.
Ser o meu corpo, a construção do poema
Na romã, feridas rasgadas pelo amor e

sentir tudo no universo inteiro

jaz a seus olhos
Na perfeição nítida do rosto
Versos do verdadeiro amor nunca irão morrer
sob a rotação das cores das estações
novas raízes  impulsionam uma reorganização
formando outras trilhas de flores na terra
verdes campos... repletos de saudades...!
no futuro mais verdes
o tempo toca nas alterações
que se refaz na voz da esperança com serenidade
dentro de cada céu
o corpo de centenas de árvores arderam...
lembranças balançaram folhas e folhas
histórias antigas...
que hoje com docilidade a brisa trata de adocicar
canções de amor...
no início da aurora até as tardes de pôr-do-sol
aonde dois amantes partilhavam
sonhos e segredos cravados
em um dos locais mais altos... no Carvalho
nos caminhos da floresta
sobrevivem dois nomes cravados
entrelaçados nos nós da grande árvore
o nome dele Pedro o dela... Inês
 
dobra a onda do teu corpo
nos lugares em que a habitação
é de lágrimas vivas como morangos
doces e santas.
 
o campo santo esconde os lugares
imaculados. Os ossos perante os ossos
a espada defronte à flanela dos olhos.
dois melros erguem-se de uma pedra em
combustão e tocam no silêncio dos
amantes.
 
o amor é a doçura dos ângulos
a pedra onde os corpos se enrolam
na lenda da rainha morta, a morte
e a vida no chão da pedra do campo
 
o rei saudade desembrulha a rainha morta
e beija-a. Já não bastam os seus olhos, para
ser feliz apenas a presença um desígnio
 
que se mostre superior, anterior a tudo.
os padres, à noite, parados no scriptorum,
ouvem os lírios, chamando a lenta
ascensão do tempo. Vivem largos
os amantes e felizes, com as horas
em guerra, esquecendo o horário
da lua e do sangue. O rei saudade
vai nu perante o povo.
 
a saudade é a morte superior
dos degraus da pedra fina
 
o corpo da rainha ergue-se
à coroa e vence o tempo
rente ao chão só a erva
humana poesia de terra e pó.
 
o olhar  do rei perante a noite superior
debaixo da terra escura, lambendo o que
resta da pedra fina. São as vozes da ermida
que levantam as saias da dança. à volta do
adro, rodopiam as fogueiras e ergue-se
um tumulto de fogo desde santa clara a santa
Maria de Alcobaça. escrevo no pergaminho
o teu nome  com o selo do corvo real. Amo-te
com a voz da noite escura.
 
ergue-te, ó rainha da alba negra!
antes do nevoeiro do povo santo
bebe a luz do território vazio
e dança, os corvos partem.
 
ergue-te, ó rainha da pedra branca!
vai e levanta o rei saudade do seu
rosto de morta e lança as pedras
para o fosso lá no mar. Saem de ti
os melros todos e todos os dias da
peregrinação. As vozes sucumbem
só de pressentirem o fogo. Mais alto
o astro humano se levanta e retira da lua a claridade
 
Eu te sinto, meu amado, por dentro da raiz da pedra
À flor da noite, além das sombras das nuvens azuis.
Na rotação das cores das estações eu te encontro
Pra lá do encanto das tonalidades matizadas
Influxo intimista, decodificado, que caminha, canta
E segue as canções da palavra, tocadas em Hamelim
 
Rumam pró sol as visões da alegria em espiral
De cores novas, mas a cidade fica e é chão
Que vibra ao som do poema, a vida como obra
De arte sulcada, instantes que traçam a jornada
E entrançam os fios sobre pegadas já quase apagadas
 
Na ampulheta não só passa o tempo com a areia
Dourada, dissipa-se o amarelado âmbar do vento
Da fala dos girassóis, das magnólias nas noites
E manhãs marginárias, do inverno a encruzilhada
 
Esqueceste as conveniências e eu te co-respondi,
Desprezaste as convenções, desafiaste com história
Jamais escrita a paixão tecida e no Mondego lavrada
 
Ah, meu amante adorado, sou tua rainha pela ira
E pelo desprezo insultada, injuriada e, pelo medo,
Decapitada. No meu coração a farpa, no céu impossível
Com sandálias de ar provaste da minha boca amarga
 
Enquanto pelo umbigo - no rio - o boto bebia
A lua que vagava e obstruía o caminho d'água
 
Por mim navegaste na dor do vazio da alma
Que trazias na mão, sem forma e espanto
Na ausência do tacto em momento solene
Desato o tom secreto da harpia e abro o som
Das pálpebras vitrificadas por seiva que voa
Enconchada. Ainda que em breve céu, uma dança
Distante da terra, no convento de Santa Clara.
 
Atingem-me tuas lágrimas, querido, nesta renda
De pedra em Alcobaça. Pesam-me sobre o corpo
E a alma teus símbolos que arrancam corações
Pelo peito e por trás das espáduas, marcam-me
O choro do Mondego, do barqueiro, do barco, 
Pelo colo das águas e por fontes claras
 
Canta, meu rei, o pranto da flor da amora,
Abre teus dedos fechados em ostras, colhe-a.
E com teu mar viaja por cidades variadas
à procura do vento da praia
 
[No eclipse Órion escancara com raiva as asas]
 
Brinca comigo na cascata e no rio, dá-me sem pressa
A tua mão e pelo chão leva-me ao lugar do brilho:
A noite resfria-me entre as constelações de verão.
 
Traz-me, amado, a paixão que cintila no teu olhar.
Que retorne ao cosmos o centro hirto, num estrondo
se ouça o suspiro das nuvens azuis.
 
Partir? Jamais quis.
 
E como poderia, se não me deixas ir, se berram
os teus lábios em lágrimas, se te perdes selvagem
No lugar das gaivotas amadas, se para mim emigras
De corpo e alma, se me pedes outra vez aquela pedra
E com ternura me pressentes no movimento d'água,
Na música, na canção que me arrepia, na sílaba
Branca da areia dos pinhais e na praia escurecida?
 
Como, se queres como ornamento meus beijos
A tocar-te o monumento com o ardor dos sinos
E me tens na memória do calor? Sim, meu amor,
Para o vento inventemos a tempestade, contra
O frio, os obscuros domínios, os envenenados
E os impossíveis.
 
Dou-te a pedra mágica, vem. Vem construir-nos.
 
Vem ser o meu-teu corpo re-criado, re-encarnado,
Vermelhidão escrita no fogo do verdadeiro amor
A sentir tudo, um universo inteiro, um futuro
Verde, inimaginado, real realidade nas folhas
De sonhos secretos, de segredos desconsolados.
 
Um poema sem lágrimas, amor meu, no olhar
Embargado uma aragem, o frescor de outras
Tardinhas, sobreviventes das letras.
Com a boca pedrês costurada em ouro, sílabas
Acalentam a dormida da lua, em silente nudez.
 
Dançamos à volta do fogo sagrado, polaridades
Em perfeita sintonia, a natureza equilibrada.
A imagem reflectida, enfim complementando
A imagem projectada. Em perfeita comunhão.
Unidos e justos, até tarde fazemos amor sem
Mais saudades. E rubros mergulhamos no ar,
Em êxtase. Completos. Satisfeitos. Aguados.
 
Sonhei suave  e linda a mais bela mulher-menina
que havia nos arvoredos encantada por pinhais...
 
Era doce a fada do amor que a levou ao seu Senhor
e o fez apaixonar pela donzela,
fruto proibido que era, e não deveria almejar...
 
Mas o amor foi mais forte
muito mais que a sorte e ei-la  no seu altar!
 
E um dia, mais tarde, cá está ela a brilhar...
 
Não sofreu nada, sofreu tudo, fechou um parêntesis obscuro,
abriu a transclara posição dos astros!
 
Mas, ao menos por uma vez,
 
foi o Amor de Pedro por Inês!
 
 (para continuar)

Poetas:

Rosangela Aliberti, Alexandra, José Gil, Jorge Vicente, Constantino Alves,
Rui, Xavier Zarco, Sonia Regina, Manuel C. Amor, Joaquim Evónio

POETAS DO GRUPO DE DISCUSSÃO LITERÁRIA ENCONTRO DE ESCRITAS

Autor: Eduardo Gomes
Data: 28/10/2005


 
 

Categorias Poéticas:


Eduardo Gomes          Tel.: 55 - 71 - 98148.6350     Email: ebgomes11@hotmail.com