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Síndrome do meu pânico... ( Simone Bacelar )
me cobre dinheiro
mas não me cobre presença
o dinheiro eu jogo na mesa
como um fígado embrulhado em jornal
ele aceita troco
aceita atraso
aceita juros
aceita ser cambiado
o dinheiro não quer meu rosto
não quer minha nuca
não quer meu suor respirando no seu ouvido
ele quer número
ele quer cifra
ele quer sangue convertido em papel
eu pago
mas não me cobre presença
presença é outra espécie de sacrifício
é arrancar a própria cabeça
e pendurar na lâmpada
para provar que estou viva
- não estou -
estou funcionando
há diferença
querem meu corpo sentado
na jaula das conversas repetidas
querem meu riso calibrado
querem minha língua servindo sobremesa
me cobre dinheiro
o dinheiro eu produzo
com carne
com hora
com desgaste
presença não
presença é medula
é expor o nervo
é deixar que mastiguem minha energia
como pão quente em boca alheia
não
não
não
eu nego três vezes
o dinheiro circula
entra na conta
sai da conta
fecha e abre portas
mas presença abre o peito
e deixa entrar as impurezas
confundem ausência
com desprezo
eu não desprezo
eu me preservo
multidão é lixa
mesa cheia é açougue
brinde é sino chamando para o abate
me cobre dinheiro
me cobre a conta de luz
me cobre o aluguel
me cobre o gás
mas não me cobre estar
estar é vestir um cadáver social
é sorrir com os dentes apertados
é manter a espinha reta
enquanto algo por dentro implora por silêncio
eu pago
eu atraso
eu resolvo
mas eu não me entrego
dinheiro tem comprovante
presença tem hemorragia
e eu não vou sangrar
para satisfazer a fome
de quem precisa me ver
para acreditar que existo
dinheiro tem obrigação
de circular...
eu não.
Poema de Simone Bacelar...
Autor: Eduardo Gomes Data: 07/03/2026
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