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TEXTOS D TERCEIROS 01       Voltar   Imprimir   Enviar   Email

A Humanidade ainda tropeça no básico ( Wanderson Dutch )

A humanidade construiu satélites, decifrou o genoma, chegou ao fundo do oceano e ao limite do espaço. E ainda assim tropeça no básico. Ainda confunde poder com direito, opinião com verdade, crença com ética. Ainda acha normal destruir o que não controla, odiar o que não entende, eliminar o que não se encaixa. A chamada estupidez humana não é ausência de inteligência. É o uso sistemático da inteligência para justificar o injustificável.
 
Ela se manifesta quando alguém olha para dados, ciência, história e sofrimento real e escolhe ignorar tudo isso em nome do conforto psicológico, do grupo ao qual pertence ou do privilégio que quer preservar. É uma estupidez ativa, não passiva. Ela exige esforço. Exige repetição. Exige que se construa uma bolha onde o mundo possa ser negado sem culpa.
 
Por isso ela é tão perigosa. Porque ela não nasce do vazio, nasce do excesso. Excesso de certeza, excesso de identidade, excesso de ego. Pessoas não erram apenas porque não sabem. Erram porque preferem não saber aquilo que ameaça suas convicções. Erram porque mudar custa. Erram porque rever a própria posição dói mais do que ferir o outro.
 
A estupidez também se institucionaliza. Ela vira política pública. Vira editorial. Vira algoritmo. Vira discurso religioso. Vira slogan patriótico. Vira lei. Vira bala. Vira omissão. Ela deixa de ser falha individual e passa a ser estrutura. E quando isso acontece, ela mata sem precisar de ódio explícito. Mata por negligência, por cinismo, por cálculo.
 
É ela que permite negar aquecimento global enquanto cidades alagam. Negar racismo enquanto corpos são empilhados. Negar desigualdade enquanto fortunas crescem obscenamente. Negar pandemias enquanto hospitais colapsam. Negar violência enquanto vítimas pedem socorro. Tudo isso exige um nível profundo de autoengano coletivo.
 
Existe algo ainda mais perverso. A estupidez humana quase sempre se fantasia de virtude. Ela se apresenta como tradição, como moral, como liberdade de opinião, como direito de ofender, como defesa da família, como amor à pátria, como fidelidade a Deus. Ela nunca se assume como estupidez. Ela se veste de nobreza para não ser confrontada.
 
Talvez o que canse não seja a estupidez em si, mas a previsibilidade dela. O roteiro é sempre o mesmo. A negação, a ridicularização, a demora, o colapso, o arrependimento tardio, a promessa de aprender e, logo depois, a repetição.
 
A tragédia não é que as pessoas errem. É que o erro seja reincidente, consciente e socialmente recompensado. A tragédia não é a queda. É a recusa em levantar mesmo depois de ver o chão.
 
Texto de Wanderson Dutch...

Autor: Eduardo Gomes
Data: 11/01/2026

 

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