Poesias

OLIVER HARDEN       Voltar   Imprimir   Enviar   Email

As Paixões ( Oliver Harden )

As paixões, enquanto forças primordiais da experiência humana, constituem um território de paradoxos irreconciliáveis à primeira vista. São, simultaneamente, fontes de elevação e de queda, de sentido e de desmedida, de criação e de ruína. Habitantes silenciosas do âmago do ser, impulsionam o homem tanto à realização mais nobre quanto ao abismo mais profundo, revelando-se como uma ambiguidade estrutural da condição humana.
 
Pensar as paixões exige, portanto, um mergulho atento nas tensões que atravessam a existência, entre liberdade e domínio, lucidez e vertigem, forma e excesso.
 
Desde a Antiguidade, as paixões ocuparam lugar central na reflexão filosófica, não como meros acidentes da alma, mas como forças constitutivas do viver. Para Aristóteles, elas não eram intrinsecamente virtuosas ou viciosas, mas disposições afetivas passíveis de orientação pela razão prática.
 
Quando educadas pelo discernimento, as paixões tornam-se energia vital, combustível do florescimento humano. O amor pode transfigurar-se em cuidado e alteridade, o desejo de saber em impulso civilizatório, a coragem em disposição ética diante do risco. Assim, sob a medida do equilíbrio, as paixões conectam o homem ao sublime, àquilo que o excede sem o aniquilar.
 
Entretanto, essa mesma potência carrega em si a semente do descontrole. Espinosa descreveu as paixões como afecções que, quando não compreendidas, submetem o indivíduo a uma forma de servidão interior. A alma, capturada por afetos que não domina, deixa de agir para apenas padecer. A ira que se absolutiza rompe vínculos, o orgulho hipertrofiado obscurece o juízo, o medo contínuo paralisa a ação. Nesse registro, as paixões deixam de ser vias de expansão e convertem-se em forças de ruína, não por sua existência, mas por sua opacidade à consciência.
 
Um dos eixos mais persistentes do pensamento ocidental é o conflito, real ou aparente, entre razão e paixão. Para os estóicos, a paixão representava uma perturbação da alma, algo a ser domado ou eliminado em nome da ataraxia, a serenidade imperturbável. Tal ideal, embora elevado, corre o risco de empobrecer a experiência humana, pois supõe uma purificação que, ao custo da tranquilidade, sacrifica a intensidade do viver.
 
Em oposição, o romantismo do século XIX celebrou as paixões como expressão autêntica da vida, afirmando que sufocá-las equivaleria a negar a própria existência. Essa perspectiva encontra ressonância na concepção nietzschiana do dionisíaco, entendido como força vital, instintiva e criadora, ainda que perigosa.
 
Para Nietzsche, não são as paixões que empobrecem o homem, mas sua incapacidade de suportar a intensidade que elas exigem. A razão, nesse sentido, não deveria ser carcereira das paixões, mas sua intérprete mais lúcida.
 
As paixões operam sempre em regime de ambivalência. São capazes de gerar as alegrias mais intensas e os sofrimentos mais devastadores. O amor, talvez a mais paradigmática das paixões, eleva o indivíduo à experiência do êxtase e da criação, mas também o expõe ao ciúme, à perda e à tragédia.
 
A literatura e o mito reiteram esse duplo movimento, mostrando que a grandeza da paixão é inseparável de seu risco.
 
O mesmo se aplica à ambição, força que pode conduzir ao aperfeiçoamento e à superação, mas que, quando desmedida, degenera em hybris, a arrogância que antecede a queda. Assim, as paixões não se deixam reduzir a categorias morais simples. Não são apenas alegrias nem apenas ruínas, mas campos de possibilidade cujo desfecho depende do modo como o sujeito as assume e das circunstâncias em que se manifestam.
 
Uma compreensão contemporânea das paixões exige abandonar tanto o racionalismo repressivo quanto a exaltação ingênua da emoção. As paixões não são potências externas que se impõem ao sujeito, mas modos pelos quais ele se relaciona com o mundo.
 
Como assinalou Sartre, elas integram o exercício da liberdade, expressam escolhas, valores e projetos existenciais. Amar, odiar, desejar ou temer não são fatalidades, mas formas de engajamento, maneiras pelas quais o indivíduo se compromete com aquilo que considera significativo.
 
Compreender as paixões, portanto, é um gesto ético e existencial. Reconhecer-se atravessado por elas não implica submissão, mas possibilidade de transformação. O célebre aforismo de Pascal, segundo o qual o coração possui razões que a razão desconhece, não é uma apologia do irracional, mas um convite à escuta das camadas mais profundas da experiência humana. É nesse espaço de tensão, e não de negação, que a condição humana se desenha.
 
As paixões são, ao mesmo tempo, virtudes e defeitos, forças de alegria e vetores de ruína. Constituem o paradoxo essencial do humano, aquilo que pode nos elevar à criação de sentido ou nos precipitar no excesso que nos dissolve. São inevitáveis, inescapáveis e, por isso mesmo, exigem uma ética do manejo, não da supressão.
 
O desafio não está em extingui-las, mas em habitá-las com lucidez, em domesticá-las sem empobrecê-las, em vivê-las intensamente sem perder-se nelas. Como afirmou Nietzsche, é preciso carregar um certo caos interior para que uma estrela dançante possa nascer. As paixões são esse caos, mas também a condição mesma do brilho.
 
Oliver Harden

Autor: Eduardo Gomes
Data: 11/01/2026

 

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