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A Hipocrisia ( Oliver Harden )
A hipocrisia não é apenas um vício entre outros, ela é o vício que aprendeu a pensar, a falar e a rezar. Enquanto os demais pecados se escondem nas sombras, constrangidos por sua nudez moral, a hipocrisia atravessa a praça pública de cabeça erguida, vestida com os trajes da virtude, exigindo reverência, não correção. Ela não tropeça na própria consciência, porque a substituiu por um espelho.
O homem hipócrita não se sente culpado, sente-se injustiçado quando não é reconhecido. Seu drama não é moral, é estético, sofre não por aquilo que é, mas por não ser visto como gostaria. Há nele uma curiosa inversão do arrependimento, não pede perdão pelos atos, exige aplauso pela encenação. Sua alma não busca redenção, busca plateia.
É por isso que a hipocrisia é mais perigosa do que a crueldade ou a mentira vulgar. O cruel sabe, ainda que vagamente, que fere. O mentiroso comum teme ser desmascarado. O hipócrita, porém, acredita sinceramente na superioridade moral de sua máscara. Ele não mente apenas aos outros, mente a si mesmo, e quando a consciência tenta falar, ele a acusa de calúnia.
Nesse ponto, a hipocrisia torna-se uma força espiritual corrosiva. Ela corrói não apenas o caráter individual, mas o tecido moral da convivência. Onde ela se instala, o bem deixa de ser uma exigência interior e passa a ser um ornamento social. Virtudes tornam-se moedas, usadas para comprar prestígio, poder ou absolvição antecipada. O homem já não pergunta se é justo, pergunta se parece justo.
O hipócrita ama as palavras elevadas porque elas o isentam do esforço silencioso. Prefere discursos a gestos, símbolos a sacrifícios, declarações a transformações. Há nele uma profunda aversão à verdade nua, porque a verdade não aplaude, não consola, não sorri para o palco. A verdade exige, a hipocrisia recompensa.
Talvez o aspecto mais trágico desse vício seja sua capacidade de se reproduzir socialmente. Quando a hipocrisia triunfa, os sinceros passam a parecer ingênuos, os silenciosos suspeitos, e os arrependidos, fracos. Cria-se então uma estranha ordem moral em que o barulho substitui a ética e a indignação teatral toma o lugar da responsabilidade.
A hipocrisia não destrói o bem frontalmente, isso seria honesto demais. Ela o imita, o deturpa e o esvazia por dentro, até que reste apenas a casca respeitável de uma virtude morta. E quando finalmente domina, o mal já não precisa se esconder, basta aprender a falar bonito.
Assim, o maior perigo da hipocrisia não está no dano imediato que causa, mas no mundo que constrói, um mundo onde a aparência vale mais que a consciência, onde o aplauso substitui o perdão e onde a alma, cansada de fingir, já não sabe mais distinguir entre aquilo que é e aquilo que representa.
Oliver Harden
Autor: Eduardo Gomes Data: 02/01/2026
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